Ideal

No Prefácio que escreveu para os volumes de poesia editados pela IN-CM, António Cândido Franco, catedrático da Universidade de Évora, afirma: “Da Poesia, diziam os antigos trovadores que era coisa de saber e alegria. Saber porque a palavra exigia mais do que lembrança e alegria porque era novidade tudo o que estava para lá da repetição. Da Poesia de Tomaz de Figueiredo se pode dizer que, ensaiando escapar ao aparente torniquete da repetição, se faz um caso explosivo de tristeza sadia ou de alegria doentia…,”continuando mais adiante: “Só que, em Tomaz de Figueiredo, a fragilidade do mundo, a dolorosa margem de absurdo em que se consome a vida, é também o sinal forte do seu inefável. Por detrás de impropérios com que ele varre o tereno, corre uma brisa mítica, imponderável e luminosa, que é a graça intemporal da infância…”.
Romancista-poeta, poeta-romancista, poeta em tudo o que escreveu, os acontecimentos e percalços da sua vida – em que a profissão lhe foi madrasta: - “Todos os cargos oficiais que desempenhei, tão exteriores a mim, considero-os violência de vida.” – influenciaram indubitavelmente toda a sua escrita. Propomo-nos, assim, apresentar como que uma biografia poética do escritor, em que os poemas colhidos nos seus livros, ou no espólio cuja organização, por tão vasto, ainda não ultimámos, de algum modo ajudem a caracterizar estados de alma tão diferentes que marcaram as diversas fazes da sua vida.
Foi nesta linha que escolhemos este, porventura, primeiro soneto, composto em 1917, na cidade galega de La Guardia, no colégio de jesuítas que então frequentava, e no qual, o jovem e naturalmente ingénuo poeta de quinze anos, sonha:

Amar! E ser amado! Eis aqui…
bela divisa que eu pra mim tomei
podê-la-ei cumprir isso não sei
porque metade dela toca a ti.

Precis é que tu gentil rubi
pelo teu lado sigas esta lei
pois cá por mim, descansa, a guardarei
desde que a vez primeira eu te vi.

Da tua parte pois segura o fio
que unirá nós dois atá à morte
e viveremos felizes desta sorte.

 

E depois quando tu remares com brio
e eu também vogar no mesmo rio
que naveguemos ambos num só norte.

in Poesia II, IN-CM

Dois anos mais tarde, num livrinho de poesias, ainda dos tempos de colégio, por certo idêntico a tantos outros que entre si permutavam os jovens e esperançosos poetas de dezassete anos, surge esta

Aspiração Suprema

Quando a nortada silva em fúnebre gemido
e o eco do trovão ribomba e ensurdece,
os meus lábios febris vão murmurando a prece
da súplica fervente ao Deus desconhecido.

-- Ó tu que aos elementos deixas o bramido,
ao selvagem no bosque o fogo a que se aquece,
porque privas, Senhor, o servo que fenece
da luz que busca há muito errante e foragido?

Deixa-me, quando a morte descarnada e fria,
ao lançar traiçoeira a fera mão esguia,
chamando a si raivosa, um corpo a que tem juz,

erguer de manso a voz, e em testamento ao mundo,
em desafio audaz, ao seu bolor imundo,
bradar como o Poeta: “Luz,’ inda mais luz”!

in Canções Meridionais-Poemas Líricos
Poesia II, IN-CM)

No entanto, e o próprio o afirma em documento do seu espólio conservado na Casa de Casares: “A actividade literária iniciei-a num jornalzinho de Arcos de Valdevez, O Realista, revoltando os senhores de lá com académicos sonetos, em parte audaciosos…Fui sentenciado um tolo e um nefelibata. Alguns dos senhores de lá sabiam este palavrão, resumo de quanto não podiam entender. Aconselharam-me Victor Hugo e uns poetas confidenciais da terra e talentos que arrelampariam o mundo se por suma desgraça os não tivessem matado as bebidas brancas…e outros infortúnios de bom-tom,…, tombos de éguas aluadas que escutavam relinchos de garrano perseguidor”. Se fora hoje, não teriam talvez coragem de lhe endereçar tão “sábios” conselhos, ainda que lá continuem a existir, com penosidade, os “poetas confidenciais” a que certeira e sarcasticamente se referia!

A Cavalgada

No azul País Quimera a que eu aspiro,
é meu sonho uma gôndola ametista;
e se no alto alongo a minha vista,
a miragem avulta, em que deliro.

 

Como um audaz navegador de Tyro,
demanda Ofir meu sonho de conquista;
e nem sequer duvido que ele exista,
contemporâneo, ambicioso Cyro.

 

Não pude achar os encantados paços,
onde nos babilónicos terraços,
vagam perfumes de âmbar e benjoim:

e eu que busquei os longes da Quimera,
encontro-me um quixote sem galera,
banal e humano, limitado a mim.

(in “O Realista”, 1925)

Poesias de tenra juventude, ingénua ainda em seus conceitos e musicalidade. Mas já poesia, a anunciar um poeta nascente que nos viria a legar páginas e páginas de poemas, por vezes pungentes, por vezes mordazmente irónicos ou até revoltados – poeta jovem a prometer o poeta que aí vinha.

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